
É muito estranho ter a sensação de descoberta de algo maravilhoso, quando tantos já conheciam o objeto de surpresa de muitas outras estações.
Meu olhar se prende, se desvia, e ás vezes até se esconde, tentando entender de onde veio aquilo, num desconforto quase patético. Onde eu estava que não conheci isso antes?
Foi assim quando li Goethe, e os sofrimentos de um pobre jovem, foi assim aos quinze anos ouvindo o movimento largo do Inverno de Vivaldi, e quando vi as noites estreladas de um sujeito sem orelha.
Foi assim. Uma supresa e um acanhamento. As descobertas tardias me fizeram sentir chegando atrasada numa festa que seria inesquecivel.
E o meu mais recente "Foi assim" vai pra David Lynch!Um funcionário em férias de uma empresa gráfica passaria pelos olhos despercebido, se antes não tivesse passado pelos olhos de Lynch.
Esse universo absurdo que se reproduz entre as nebulosas lógicas do sonho, condesando e deslocando situações e argumentos intangíveis me faz pensar que realmente no céu, e somente lá, tudo esteja realmente bem.
A falta de sentido da vida, as vezes em carne viva, me fez sentir em casa, não por que a casa seja confortável, mas por que de alguma forma eu já estive lá, em algumas ocasiões por muito tempo.
Descobri quem matou Laura Palmer, fiquei desconsolada ao ver uma mulher de olhos tristes e bochechas grandes me fazendo entender que num lugar, um pouco distante, se pode encontrar um pouco de paz.
Foi assim. No MIS, durante a exibição de "o Homem Elefante", numa noite de quarta-feira quando achei que não me surpreenderia novamente, aquele humano deformado se declarou feliz todas as horas do dia, no mesmo instante senti meus olhos marejados em lágrimas inesperadas.
E quando assim, só de curiosidade, olhei para o lado, a luz da projeção em preto e branco deixava iluminadas as lágrimas dos demais presentes. Pronto! Vi que não era a única a reagir assim. Tudo culpa do David Lynch!
http://www.youtube.com/watch?v=q2KEN8XBL00
